Museu Carlos Machado

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Etnografia Regional

Bule de chá

Cerâmica da Lagoa
Barro cozido e vidrado
A 20,5 x L 32 x D 20 cm
MCM879

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English abstract

Culture, manipulation and consumption of tea (Camellia sinensis) originated in China and Japan many centuries ago. With a millenial use in the Orient, tea started to be experimented with in Europe in the 17th Century, inicially with medicinal purposes but later as a leasure and social drink, when its use became more common.

In São Miguel island tea culture goes back to the 19th Century. From 1878 onwards, after the import of the plant earlier that century, the then formed Society for the Promotion of Michaelense Agriculture started the industrialization of the production, bringing two Macau-born Chinese to help with the basics of the craft. This tea pot, from the Museum's Ethnograpy collection, is an example of rural ceramic production, from a time when tea was already a household drink in all the island.

Português

A cultura, manipulação e consumo do chá (Camellia sinensis) tiveram origem na China e no Japão há muitos séculos atrás. Com uma utilização milenar no Oriente o chá só começou a ser experimentado na Europa a partir do século XVII, inicialmente como uma infusão exótica e com fins medicinais, tornando-se depois numa bebida social e de fruição, tendo-se generalizado o seu uso.

Em São Miguel a história da cultura do chá remonta ao século XIX, primeiro com a importação da planta logo no primeiro quartel da centúria, depois com os começos da indústria de transformação da folha a partir de 1878, data em que a Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense traz à ilha dois chineses de origem macaense, Lau-a-Teng (intérprete) e Lau-a-Tan (mestre), para ensinar os rudimentos daquela arte. Essa actividade iria apaixonar algumas das personalidades mais interessantes da segunda metade do oitocentos micaelense, destacando-se aqui a figura incontornável de José do Canto (1820-1898), grande proprietário e homem de cultura, promotor da introdução de novas espécies botânicas e tecnologias agrícolas na sua ilha natal.

Sob influência de uma série de elementos favoráveis ao seu cultivo, como o clima, o relevo e a qualidade do solo, rapidamente a planta do chá vingou na ilha, de modo particular nas encostas norte de São Miguel. A colheita da folha do chá, realizada entre abril e setembro, era maioritariamente efetuada por mulheres e crianças que assim ajudavam ao orçamento familiar. No final do século XIX os chazeiros marcavam já de forma indelével trechos da paisagem micaelense, havendo mais de duas dezenas de produtores, entre plantadores e fabricantes, que aproveitavam o valor comercial da novel planta. Cedo se passou da manufatura para o fabrico industrial.

O século XX foi um período conturbado para o chá micaelense. A primeira metade foi caracterizada pelo aparecimento de novas fábricas e pela modernização das já existentes. Nas primeiras décadas do século muitas dessas unidades industriais viram a excelência do seu trabalho reconhecida através de várias medalhas ganhas em exposições nacionais e internacionais. O protecionismo oferecido pelo Estado ao chá oriundo da África portuguesa, ao mesmo tempo que sobrecarregava de taxas o micaelense, entre outros fatores, levou a partir da década de 50 do século XX ao encerramento sucessivo das várias fábricas da ilha.

O consumo de chá, antes da introdução da cultura em São Miguel, era já uma bebida apreciada entre as classes locais mais privilegiadas, que incluíam nos seus hábitos de sociabilidade o consumo da exótica infusão, talvez pelas ligações portuguesas ao Oriente ou pela influência inglesa nascida do comércio da laranja. No mundo rural o seu consumo popularizou-se após a vinda dos primeiros chineses. Gente da ilha, contratada para ajudar no labor da apanha e produção, terá levado alguns pés da planta para casa, aí reproduzindo a bebida com os saberes aprendidos.

O bule associado a este texto, que integra o acervo de etnografia regional do museu, é um exemplo da produção cerâmica da ilha associada ao consumo de chá nos meios rurais, que se generalizou. Hoje, dois séculos após a sua introdução em São Miguel, e passados 130 anos sobre a chegada dos chineses que aqui vieram ensinar a manufactura do chá, esta cultura continua viva na ilha, apesar de todas as adversidades e crises subsistidas, constituindo-se como parte integrante do património identitário micaelense. [SFS]

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