Museu Carlos Machado

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Espécies em Pedra

Marco de propriedade com brasão - Condes da Ribeira Grande

Séc. XVII
Rocha vulcânica
A 1,5 x 0,40 m
MCM40017

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Os grandes fidalgos que vieram para os Açores liderar e gerir as ilhas foram gracejados pela monarquia com títulos nobiliárquicos, como o caso dos Câmara, que foram capitães dos donatários de São Miguel entre os séculos XVI e XVIII. Rui Gonçalves da Câmara (sétimo capitão donatário) foi o primeiro conde de Vila Franca, graça de D.Filipe I (Filipe II em Espanha) em 1583: algo que não agradou aos vilafranquenses, talvez mesmo "pela sua adesão à causa de Filipe II" (1).

Sucedeu-lhe na capitania o filho D. Manuel da Câmara, feito segundo conde da Vila Franca pelo rei, e a este D. Rodrigo da Câmara, terceiro e derradeiro portador do título. Julgado e condenado pela Inquisição, num processo cujos registos demonstram uma série de eventos e situações dignas de um texto à parte, D. Rodrigo morre em 1672, e com ele o título de conde. D. Manuel Luiz Baltasar da Câmara, que herdara do seu pai as incumbências próprias do cargo, mas também o embaraço, é renomeado conde, desta vez da Ribeira Grande, uma mercê de D. Afonso VI, que justifica o novo título invocando a boa memória dos seus avôs, evitando a de seu pai: "(...) e respeitando outros-sim os merecimentos dos avós de que procede, muito beneméritos destes meus reinos, e dignos de que se conserve a sua memória, que confio saberá D. Manuel muito imitar, desejando por todos estes respeitos fazer-lhe honra, acrescentamento e mercê do título de conde da vila da Ribeira Grande na ilha de S. Miguel para ele e seus descendentes de juro e herdade (...)" (2) O brasão lavrado nesta pedra de tufo vulcânico revela as armas dos Câmara, com origem em João Gonçalves Zarco (pai de Rui Gonçalves da Câmara); ainda se notam, mais próximo da sua base, as iniciais "C.D", que consideramos como "Capitão Donatário". De notar que, segundo Fructuoso, citando documento régio de D. Afonso V, as armas para João Gonçalves, "O Zargo", ficam estabelecidas com "escudo de campo verde, uma torre de homenagem com uma cruz de ouro mais rica que a de Machim, no cimo, e com dois lobos marinhos encostados a ela, que parece que querem trepar ao cume da torre" (3) A indicação dos lobos marinhos surge na sequência da descoberta, aquando da exploração da ilha da Madeira por João Gonçalves Zarco, de muitos destes animais no lugar de Câmara de Lobos.

No entanto, a sua representação nas armas dos Câmara apareceu logo errada, lobos marinhos dando lugar a lobos, que aqui vemos esculpidos neste marco de propriedade.

[HAC]

1 - MAIA, Francisco de Athayde M. de Faria e - Capitães dos donatários. 1439-1766, 4ª edição, Ponta Delgada: Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1988, pág. 191

2 - In: Arquivo dos Açores, vol. 7, pp. 293-294 3 - FRUCTUOSO, Gaspar - Saudades da terra, Livro II, Ponta Delgada: I.C.P.D, 2005, pág. 20

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