Museu Carlos Machado

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Arte

O Natal

Domingos Rebelo (1891-1975)
O Natal, 1926
Óleo sobre tela
129 x 63 cm; 129 x 105 cm; 129 x 63 cm
MCM5015

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English abstract

The multipurposed work of Domingos Rebelo, born in 1891, spread through painting, drawing, compositions for tapestry, ethnographic sculptures, illustrations for magazines such as Açores (of which he was Director), mark him as one of the most prolific Azorian artists of the 20th Century.

O Natal (Christmas), from 1926, was exhibited for the first time that same year in a solo show from the artist, then shown as Triptico de Natal (Christmas triptych) and was bought by Luis Bernardo Leite de Ataíde on behalf of the Junta Geral. On the same exhibit other Domingos Rebelo celebrated works such as Os Emigrantes (The Emigrants) and Retrato de Artur May (Portrait of Artur May) were shown. O Natal is mirror of the devotion Azorians dedicate to the baby Jesus at the end of the mass celebration on Christmas.

Português

A multímoda obra de Domingos Rebelo (Ponta Delgada, 1891 - Lisboa, 1975) repartida entre pintura, desenho, caricatura, cenário, pintura a fresco, composições para tapeçaria, esculturas etnográficas, ilustrações destinadas a várias publicações, entre elas, a revista Açores da qual foi diretor artístico, e ainda a literatura infantil na autoria do Conto de Natal, de 1932, convertem-no num dos mais prolíferos artistas açorianos do século vinte, arrecadando inúmeros prémios, nomeadamente, os prémios Silva Porto, Rocha Cabral, Roque Gameiro e da Sociedade Nacional de Belas Artes. Em paralelo ao percurso artístico, desenvolveu uma reconhecida atividade docente e exerceu o eminente múnus de diretor da Academia Nacional de Belas Artes, entre 1947 e 1970. A aprendizagem académica, levada a cabo na Escola de Artes e Ofícios Velho Cabral, em Ponta Delgada, foi completada com a estadia em Paris, entre 1907 e 1913, onde, sob a égide dos Condes de Albuquerque frequentou o Curso Livre da Grand Chaumière e a Academie Julien. (1)

Destes tempos de bolseiro em Paris, conviveu com artistas da primeira geração modernista, como Eduardo Viana, Amadeo de Souza Cardoso, Emmérico Nunes, Francisco Smith, Manuel Bentes, numa época em que, em Paris, se processava um manancial de correntes artísticas emergentes às quais desafeto, Domingos Rebelo assimilará de forma intermitente, em virtude do dileto Naturalismo congénito ao autor que, efetivamente, tributa a sua arte à causa regionalista. No compromisso de «exprimir de uma maneira cada vez mais intensa a alma do povo micaelense» (2) prevalece, no conspecto geral da obra pictórica do autor, a eleição por temáticas de matriz açoriana que engloba as paisagens e os sítios concretos da ilha natal, o folclore da cultura popular, o registo de figuras arquetípicas da sociedade local, o qual integra o levantamento das indumentárias e dos ofícios tradicionais. Ressaltam, ainda, os retratos da elite burguesa e intelectual, assim como, a representação da vivência laica e religiosa essencialmente ligada à saudade e fé consubstanciais à idiossincrasia do povo açoriano. Datado do ano de 1926, O Natal, foi exposto pela primeira vez na exposição individual de Domingos Rebelo inaugurada no mesmo ano, a 13 de novembro, na Rua do Provedor, onde constava com a denominação de Tríptico do Natal, sendo adquirido nesta mesma exposição pelo Dr. Luís Bernardo Leite de Ataíde, em nome da Junta Geral. (3)

O êxito da adesão do público à exposição ficou registado na imprensa coeva que não se coibiu em adjetivos para elogiar o talento do pintor conterrâneo e os quadros ali expostos. (4) Além do Tríptico do Natal, figuraram com distinção Os Emigrantes e o Retrato de Artur May, este último galardoado com o primeiro prémio da Sociedade Nacional de Belas Artes. De temática religiosa, O Natal versa a devoção do povo micaelense ao ritual litúrgico do ósculo ao Deus Menino celebrado no fim da missa de natal. Na composição perspectivada, retirada da observação ao natural, do interior da capela-mor da igreja paroquial de São José, em Ponta Delgada, afloram os devotos, maioritariamente constituídos por mulheres envergando lenço sobre a cabeça e envoltas num xaile, e minoritariamente por homens e crianças descalças, representados em tamanho quase natural, em atitudes e expressões fisionómicas que extravasam vida, convergem a atenção no Menino Jesus, que assoma em vigorosa gesticulação ao centro da composição, sustentado pelo pároco de São José, Manuel Augusto Pereira. (5)

Este último, na presença do pároco Heitor Serra Brum (6) e do olhar atento do cónego João Pereira Dâmaso (7), dá a beijar o Deus Menino envolto em pano branco, à mulher de cabeleira descoberta, perante o olhar extremoso dos devotos, do acólito que sustém nas mãos a bacia com água e do menino de coro com o turíbulo, na retaguarda. Como bem salientou Artur May (8) , Domingos Rebelo «retrata-se a si e à sua família neste quadro», correspondendo o homem que segura no colo uma criança ao autorretrato do pintor e ao retrato do filho, e equivalendo a mulher que se prontifica a beijar o Menino Jesus à esposa Maria Josefina, retratada junto a outro dos filhos do casal, figurado de costas para o observador. A obra em apreço é de relevante interesse patrimonial, justificado no alto valor histórico que ela assume ao documentar com minudência descritiva o interior da capela-mor da igreja paroquial de São José, imortalizar figuras históricas micaelenses e ainda se reportar à prática de um ritual religioso num dado período da história.

[SM]

Notas: 1- Ver a este propósito, OLIVEIRA, Maria Teresa de, "Domingos Rebelo: Aspectos da Vida de Um Pintor Açoriano" in Centenário do Nascimento de Domingos Rebelo: 1981-1975, Ponta Delgada, Museu Carlos Machado, 1991, pp. 13-23.

2. Citado por Domingos Rebelo em entrevista dada a um matutino micaelense, referindo-se à série de quadros que iria expor a 13 de novembro de 1926 onde confessa: "Início assim a minha série de exposições de arte regional em que procurarei exprimir de uma maneira cada vez mais intensa a alma do povo micaelense." in Diário dos Açores, Ponta Delgada, 11 de Novembro de 1926, p. 1.

3. Cf. Correio dos Açores, Ponta Delgada, 14 de Novembro de 1926, p. 2.

4. Ver a este respeito "Exposição de pintura de Domingos Rebelo" in Diário dos Açores, Ponta Delgada, 15 de Novembro de 1926, p. 1.

5. Conforme identificação apresentada no catálogo da exposição A República e a Modernidade: Revelar, Renovar, Regressar, Ponta Delgada, Museu Carlos Machado, 2010, p.152.

6. Era "natural de Rabo de Peixe e pároco na Relva", segundo a informação citada no catálogo supracitado. Cf., Idem, ibidem.

7. Então prior da Igreja Matriz de São Sebastião, em Ponta Delgada, conforme refere a fonte anterior. Cf. Idem, ibidem.

8. Artur May igualmente salienta que o desenho da moldura da pintura é da autoria de Domingos Rebelo. In MAY, Arthur, "A Exposição do Pintor Domingos Rebelo" in Correio dos Açores, Ponta Delgada, 14 de Novembro de 1926, p. 1.

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