O presente desenho integra a série intitulada Os primeiros frutos concebida por Urbano entre 1999-2000. Nesta obra, o papel assume autonomia face à condição funcional de suporte-registo convencional, ao ser trazido desde o suporte para a superfície pelo artista na esteira da tendência support - surface. A vivência do papel é pressentida na tessitura de rugas que atravessam a superfície plana do papel, nos enlaçados de linhas em movimentos de curvas e na lancinante decomposição da regularidade geométrica do papel, patente na ruptura do ângulo superior esquerdo. Por outro lado, a cor surda do papel adensa-se na sedimentação de pigmentos oriundos de salpicos, escorridos e depósitos de tintas evocativos do caos inicial.
Este último consubstancia-se por mínimas variações tonais que oscilam entre tons terrosos, esbranquiçados e cínzeos aos quais se opõe o delineamento escuro de ideogramas, que colocam a representação visual muito próxima do registo pictográfico, de que o autor se deixa atrair. Os primeiros frutos testemunham uma opção fundamental do pintor: o retorno aos primórdios da arte, cujas reminiscências das superfícies rochosas e parietais da arte rupestre são sugestionadas na plasticidade do papel e no pigmento telúrico - rememorativo da Arte Povera - que o autor conjuga em justaposição com a pintura acrílica da produção cultural contemporânea.
Ademais, num retorno a rituais ancestrais dos primórdios da humanidade, onde a arte servia de mediação entre o Homem e o sonho, o artista convoca ao centro o ideograma que apela à invocação do mítico desiderato de fecundidade, prosperidade e sobrevivência, implícitos no título.
[SM]