Museu Carlos Machado

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Espécies em Pedra

Pedra de corporação de ofícios

Sécs. XVI-XVII
Ignimbrito
A. 910 x L. 685 mm
MCM40019

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Esta peça esculpida em bloco de ignimbrito, proveniente da vila da Povoação, deu entrada no Museu Carlos Machado em 1950. A vila da Povoação permanece na história de São Miguel como o lugar de onde se iniciou o povoamento da ilha, embora cedo tenha perdido importância relativamente a Vila Franca do Campo. Esta, por sua vez e logo no século XVI, dava lugar a Ponta Delgada enquanto centro urbano principal de São Miguel. No esforço organizado de povoamento das ilhas atlânticas, era natural o envio para os novos territórios de mesteres e artesãos dos vários ofícios, para a execução dos trabalhos e para o ensino dos ofícios a novas gerações, nascidas localmente (1).

O associativismo de ofícios desta época tem parentesco medieval. A crescente complexidade do tecido urbano, a especialização dos trabalhos manuais, e os desenvolvimentos tecnológicos levam a uma organização dos diversos ofícios em corporações, de forma a limitar a entrada de novos artesãos e a controlar a concorrência. Estas organizações eram igualmente importantes nas vivências dos centros urbanos, sendo algumas artérias das cidades inclusivamente dedicadas a determinadas profissões, e participavam por imposição régia nas festividades locais, incluindo procissões, onde os seus representantes seguiam acompanhados dos seus símbolos e bandeiras. No objeto reconhecem-se instrumentos de ofícios mecânicos que, à data de entrada no Museu, se entendeu atribuir à corporação dos calafates. Os calafates trabalhavam na construção e manutenção das naus e caravelas portuguesas, tanto no Porto como em Lisboa (e, mais tarde, em Goa), mas desconhecem-se os seus símbolos e bandeiras (2).

Ora, durante a época da Expansão, raramente as naus portuguesas atracavam nos portos micaelenses, que não ofereciam condições de segurança, e os poderes locais a quem incumbia o abastecimento e manutenção das embarcações das rotas transatlânticas, enviavam os seus próprios barcos a elas, ancoradas à distância. No entanto, sabe-se da construção naval na ilha de São Miguel através de textos de Leite de Ataíde (3), Francisco Carreiro da Costa (4) e Miguel Côrte-Real (5).

Esta terá conhecido algum fôlego até meados do século XVI, perdendo importância no final de quinhentos mas mantendo papel proeminente na construção de embarcações para o transporte entre as ilhas e as próprias vilas micaelenses, então ainda de dificultado contacto por via terrestre.

[HAC]

1 - MARQUES, A. H. de Oliveira e SERRÃO, Joel (dirs.) - Nova História da Expansão Portuguesa, vol. III tomo 1, Lisboa: Ed. Estampa, pp. 446-491.

2 - Em obra dos anos 40 do século XX, Franz-Paul Langhans faz um levantamento exaustivo das corporações desta época, deixando uma nota nesse seu trabalho do desconhecimento das insígnias e padroeiro de bandeira dos calafates. Cf. LANGHANS, Franz-Paul - As corporações de ofícios mecânicos: subsídios para a sua história. Lisboa: Imprensa Nacional de Lisboa, 1943, 2 vols.

3 - ATAÍDE, Luís Bernardo Leite de - Etnografia. Arte e vida antiga dos Açores, Ed. Facsimile, Vol. II, [s.l.]: Direcção Regional da Cultura, 2011, pp. 273-281.

4 - In: "A Ilha", periódico micaelense, 6 de outubro de 1962, pp. 1 e 2.

5 - CORTE-REAL, Miguel de Figueiredo - A construção naval na ilha de São Miguel. Nomeadamente na ribeira da Povoação nos séculos XVI e XVII, Ponta Delgada: Edições S.A.A., [s.d.], pp. 9-16.

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