Museu Carlos Machado

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Arte

Sem título

Hein Semke (1899 - 1995)
Cerâmica policromada
27,5 x 11,5 x 10 cm
Não assinado e não datado
MCM7062

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Tendo nascido, em 1899, em Hamburgo, na Alemanha, e falecido, em 1995, em Lisboa, Hein Semke teve papel relevante na renovação da escultura e da cerâmica no contexto nacional do século vinte. A descoberta da vocação artística de Hein Semke despontou em plena maturidade, isto é, por volta dos trinta anos, após um percurso existencial atribulado e turbulento que culminaria nas graves crises psicológicas que o determinaram inválido para o trabalho. (1)

Desde logo, na infância, a morte da mãe, em 1909, redundou na inserção de Hein Semke num orfanato. Na adolescência, alista-se como como soldado voluntário na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e de 1923 a 1928, cumpre seis anos de prisão solitária, em corolário da participação em sucessivos movimentos anarco-sindicalistas desencadeados na Alemanha. A formação académica é levada a cabo, em 1930, na Academia de Belas Artes de Hamburgo, onde foi aluno de escultura do escultor suíço Johann Bossard (1874-1950) e de cerâmica de Max Wünsche. No ano ulterior inscreve-se na Academia de Belas Artes de Estugarda, como aluno do escultor e medalhista alemão Ludwing Habich (1872-1949).

O descontentamento face à ascensão ao poder na Alemanha do regime nazi redunda na emigração para Portugal, em 1932, fixando-se primeiro em Linda-a-Pastora e, depois, em Lisboa. Rapidamente confraterniza com nomes proeminentes das artes e das letras nacionais como Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Mário Eloy, Vieira da Silva, Arpad Szenes, entre outros com quem coincidiu nas várias exposições em que participou nos anos 30. De acordo com a periodização proposta por Teresa Balté (2), de 1932 a 1941 radica a primeira fase do percurso artístico de Hein Semke, presidida pela produção de escultura de matriz expressionista onde ecoam referências da arte arcaica e medieval, que se assumem inovadoras em relação ao panorama da escultura nacional dominada pelo gosto classicizante e académico, dileto do Estado Novo (1933-1974) (3) - Razão pela qual a obra escultórica de Hein Semke incorreu no desagrado da crítica (4).

Perante a proscrição da encomenda de estatuária oficial a artistas estrangeiros, instituída pelo Estado aquando da promulgação da lei de proteção dos artistas nacionais, em 1941, Hein Semke abandona a escultura. A segunda fase da carreira artística, datável de 1947 a 1963, é protagonizada pela profícua produção em cerâmica à qual aportou relevante renovação formal. Em 1963, foi acometido por uma silicose que se traduziu no afastamento definitivo da cerâmica. Prosseguindo, doravante, com a pintura, gravura, escrita e, novamente, a cerâmica nesta terceira e última fase da sua carreira artística interrompida pela morte, a 5 de agosto de 1995. Apesar de não assinada, a escultura Sem Título tem sido referida, por alguns autores, como adstrita à obra artística de Hein Semke (5).

Ainda que não datada, cremos radicar a sua execução, provavelmente, na segunda fase da carreira do escultor, isto é, entre 1947 e 1963, vinculativa à criação de máscaras que, nos anos 50, concebeu e que foram móbil para a realização de uma exposição em 1957 (6).

Motivo pelo qual julgamos que a datação da obra em apreço não deverá andar muito desfasada deste contexto. A máscara em disposição frontal é configurada por secções geométricas (losangos, triângulos e círculos) em contundente desproporção anatómica expressionista, latente na protuberância das sobrancelhas, dos olhos, do nariz e da boca entreaberta que consubstanciam as feições anatómicas fundamentais ao sentido de individualidade assinalável no rosto da figura, que nos leva a concluir estarmos diante de Almada Negreiros (1893-1970). A julgar pela depuração geométrica anti-naturalista do rosto, evocativa do cubismo e da matriz primitiva da arte africana, aliada à vibração expressionista da paleta cromática provida de vivas cores primárias (amarelo, vermelho e azul) contrabalançadas pelo branco e negro do contorno, não só se reforça, como também se justifica a vinculação da obra ao escultor Hein Semke.

[SM]

Notas: 1 - Sobre a biografia do autor veja-se: Paulo HENRIQUES (coord.), Hein Semke. Esculturas: 1899-1995, Lisboa: Instituto Português dos Museus, 1997, pp. 166-179 e ainda Hein Semke. Cerâmica, Lisboa: Instituto Português do Património Cultural/Museu Nacional do Azulejo, 1991.

2 - Cf. http://www.cam.gulbenkian.pt/index.php?article=60579&ngs=1&visual=2&langId=1

3 - Assim referido por Paulo Henriques. Cf. Paulo HENRIQUES (coord.), Arte Moderna Portuguesa no Tempo de Fernando Pessoa, 1910-1940, Suíça, Edition Stemmle, 1997, p. 53.

4 - De que nos dão conta, entre outros, Artur Portela e Fernando de Pamplona. Cf. Artur PORTELA, Diário de Lisboa, 16.6.1936 e Fernando de PAMPLONA, Diário da Manhã, 19.6.36 e 17.4.1937. Importa ainda fazer menção à crítica elogiosa proferida por apreciadores da escultura de Hein Semke como Nogueira de Brito e Vitor Falcão, para citar alguns exemplos. Cf. Nogueira de BRITO, O Diábo, 16.2.1936 e Vitor FALCÃO, Diário de Notícias, 24.7.47.

5 - Vide Fernando de AZEVEDO e J. Luís MADEIRA (coord.), Natália: arte e poesia: Colecções de arte do espólio de Natália Correia e de Dórdio Guimarães, Lisboa: Câmara Municipal/ Ponta Delgada: Governo Regional dos Açores, 1999, p. 90.

6 - Esta exposição foi glosada, amiúde, pela crítica em artigos publicados na imprensa periódica nacional. A este respeito, vejam-se: Diário Ilustrado de 26.1.1957; A Voz de 1.5.1957; Dário da Manhã de 3.5.1957; Diário de Notícias de 17.5.1957 e O educador de 10.7.1975.

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