“A exposição pelágica introduz-nos organismos e ambientes nunca antes observados, e é nesta esfera que o projeto adquire espaço para a especulação sobre o invisível submerso como lugar de potencial cooperação ecossitémica (com o ser humano e a tecnologia) propondo relações matriciais com possíveis evoluções filogenéticas passadas ou futuras”. _ Ana Cristina Cachola
Este projeto é uma comissão do Walk&Talk - Festival de Artes e foi apresentado no âmbito da Edição 10, em parceria com o MCM.
ESPERANÇA SÍSMICA
O extractivismo, na sua prática excessiva, apresenta-se como problema maior do contemporâneo, tema do cultural e “metáfora conceptual” para a cultura; ou seja, uma metáfora que, segundo Mieke Bal, produz conhecimento de modo complexo, analítico e crítico. A omnipresença do extractivismo predatório a um nível transglobal tem tornado este fenómeno alvo de uma atenção social, política, teórica e artística crescente, na sua relação com o antropoceno, o ocidentaloceno, o capitaloceno, os seus paradoxos, denúncias e possibilidades de resolução. Ao mesmo tempo, o extractivismo tem vindo a acumular uma carga conceptual que permite alargar a reflexão sobre a aceleração, as novas formas de devastação ambiental, desigualdades e modos de exploração. Neste sentido, a obra de Mané Pacheco desenvolve-se como uma espécie de telescópio de observação extracionária, obrigando a ver os lugares críticos (e muitas vezes invisíveis) do presente, entre um optimismo visual e a (des)crença apocalítica. O trabalho da artista desenvolve-se numa prática interdisciplinar em que articula reflexões sobre o modo como a espécie humana se organiza e estabelece relações (de poder), abordando estas questões do ponto de vista biológico, social e fisiológico, numa mancha artística que se expande através do desenho, escultura, instalação, vídeo, fotografia e performance. Em Pelágica, apresenta uma instalação pontuada por objectos inefáveis em que o artificial imagina o natural, e vice-versa. Este conjunto interpela o espectador e a sua capacidade de reaprender a olhar, ver e observar. A sua pesquisa parte da recente classificação do arquipélago dos Açores como um Hope Spot: área crítica para a conservação dos oceanos (e da vida na terra), resultante da sua única e excepcional biodiversidade marinha. As condições geográficas e demográficas dos Açores, geralmente apresentadas enquanto ‘obstáculos’, tornam-se agora uma vantagem evolutiva, evidenciando este lugar como único para a preservação e conhecimento das dinâmicas entre seres vivos. A exposição é, assim, atravessada por uma espécie de esperança sísmica: esperar o melhor, sabendo que qualquer movimento brusco o impedirá. A exploração pelágica introduz-nos organismos e ambientes nunca antes observados, e é nesta esfera que o projeto adquire espaço para a especulação sobre o invisível submerso como lugar de potencial cooperação ecossistémica (com o ser humano e a tecnologia), propondo relações matriciais com possíveis evoluções filogenéticas passadas ou futuras. Em Pelágica, presume-se que estas relações (positivas) são uma forma de (bio)inteligência coletiva. Mané Pacheco impede a extracção, mostrando a natureza que lhe pré-existe e oferecendo esperança numa fórmula profilática que serve de barreira à destruição. A sua resistência amplia as possibilidades cromáticas de uma ecologia, muitas vezes, restrita a verdes e azuis. Afinal, o fazer ecológico deve ser tão diverso quanto o mundo, mesmo o mundo submerso.
Ana Cristina Cachola / Julho 2021
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No ano em que se assinalam os 50 anos da Autonomia dos Açores, a exposição Autonomia dos Açores, patente no mais recente núcleo do Museu Carlos Machado, no Palácio da Conceição, convida-o a conhecer um dos processos históricos mais marcantes da autonomia regional.